O mercado mundial de Bitcoin definitivamente colocou em xeque a sustentabilidade do Tether (USDT), o segundo ativo digital mais negociado no mundo, atrás apenas do Bitcoin.

O Tether é considerado uma “stable coin” e este artigo tem como proposta explicar e explorar essa categoria de tokens, cujo propósito principal é o de manter a paridade em relação a algum outro ativo. No caso do Tether, em “condições normais de temperatura e pressão”, uma unidade de USDT deveria valer exatamente uma unidade de dólar americano.

Mas antes de adentrarmos ao mundo das stable coins, vale a pena analisarmos os últimos acontecimentos no mercado de Bitcoin.

O Bitcoin subiu 1300 dólares em uma hora?

Como podemos observar no gráfico abaixo, no dia 15 de outubro, o valor do Tether, que há algumas semanas já vinha se descolando da paridade de um para um, despencou repentinamente para US$0,85 e começou a apresentar alta volatilidade até encontrar posteriormente um piso ao redor dos US$0,95.

Atualmente, a imensa maioria das negociações de Bitcoin é feita contra o Tether em exchanges como a Bitfinex, Binance, Bittrex e Kraken. Exatamente por isso, essas corretoras experimentaram uma forte apreciação no valor do Bitcoin cotado em Tether.

O gráfico abaixo mostra que na Bitfinex, no dia 15 de outubro, uma unidade de Bitcoin chegou a valer 7.775 USDT, uma alta de mais de 1300 USDT em um período de menos de uma hora.

A magnitude desta apreciação, entretanto, não foi verificada em exchanges que não possuem pares de negociação em Tether.

Na exchange americana Coinbase, por exemplo, a cotação do Bitcoin atingiu o pico máximo em torno dos US$ 6,800 no mesmo período.

Você deve estar se perguntando, mas por que tamanha diferença entre o preço do Bitcoin na Bitfinex e na Coinbase?

A resposta é simples: USDT não é USD!

Parece óbvio, mas muita gente confunde uma coisa com a outra. Até mesmo a imprensa chegou a noticiar que o Bitcoin havia subido para a casa dos 7,7 mil dólares, quando deveria ter dito que o Bitcoin chegou a valer 7,7 mil Tethers, que naquele específico momento estavam valendo 0,85 centavos de dólar.

Em outras palavras, a suposta forte valorização do Bitcoin, na verdade, tratou-se de uma significativa depreciação do Tether.

Por que o Tether derreteu?

Não é de hoje que o mercado levanta suspeitas sobre a sustentabilidade do Tether. São muitas as especulações que giram em torno da empresa por trás do USDT, cujo sócios são os mesmos da exchange Bitfinex.

Há quem diga que a empresa não possui reservas equivalentes em dólar americano ao total de Tethers que circulam no mercado. Até hoje, o mercado não conseguiu averiguar de maneira transparente se os mais de dois bilhões de USDT emitidos estão mesmo lastreados por quantia similar de USD em contas bancárias da Tether.

Recentemente, o site The Block Crypto escreveu aqui e aqui sobre as peripécias da Tether no estabelecimento de relações comerciais com bancos.

A resposta objetiva sobre por que o Tether derreteu nos últimos dias tem a ver com a especulação do mercado em relação ao um suposto desmoronamento da empresa e, por consequência, do ativo digital. Muita gente no Twitter, inclusive o CEO da Binance, afirmou que tudo isso trata-se apenas de FUD, sigla em inglês que significa Fear, Uncertainty and Doubt (Medo, Incerteza e Dúvida).

A realidade é que desde que a conta de Twitter anônima Bitfinex’ed começou a publicar diversas especulações e teorias sobre a relação entre a alta do preço do Bitcoin e a emissão de Tether em 2017, a saúde financeira da própria exchange Bitfinex e a existência ou não das reservas em dólar americano que serviriam como lastro para o montante circulante de USDT, ninguém conseguiu provar absolutamente nada contra a Bitfinex ou a Tether.

As pessoas que cobram transparência da Bitfinex e da Tether se esquecem que elas são empresas privadas que não precisam abrir suas planilhas e livros para quem quer que seja.

O fato é que nas últimas semanas os boatos sobre uma possível insolvência financeira da Bitfinex intensificaram-se bastante. A pergunta que emerge é: quem poderia ter interesse na propagação desse FUD?

Os concorrentes do Tether

Nos últimos meses, houve expressiva proliferação de stable coins no mercado cripto. Já são mais de 60 diferentes tokens que oferecem a promessa de estabilidade contra um determinado ativo. Alguns deles, inclusive, são 100% regulados.

Ao longo do último mês, tivemos o lançamento de duas stable coins aprovadas pela autoridade financeira de Nova York, como o Gemini Dollar (GUSD), da exchange Gemini, dos irmãos gêmeos Winklevoss, fundadores do Facebook, e a Paxos Standard (PAX), da empresa dona da corretora itBit. Outra stable coin chamada de TrueUSD (TUSD) também surgiu no mercado com a chancela de outro órgão financeiro norte-americano.

Além destas, vale lembrar que a Circle, empresa dona da exchange Poloniex e que tem o banco Goldman Sachs por trás, também lançou no mercado sua iniciativa de token estável, denominada USDC, inclusive com apoio financeiro da Bitmain, maior pool de mineração de criptoativos e fabricante de equipamentos voltados para esta atividade.

Todos estes ativos, GUSD, PAX, TUSD e USDC, prometem paridade ao dólar americano e são, por definição, concorrentes diretos do USDT. A diferença destas alternativas em relação ao Tether é que por serem iniciativas reguladas, elas seguem padrões elevados de auditoria e transparência e, por isso, não existe o temor no mercado que estes ativos não poderão ser resgatados contra o dólar americano.

O que pouca gente sabe é que os Tethers também são resgatáveis. Como bem pontua Hasu no Twitter, você tem pelo menos quatro formas de fazer isso, seja na Bitfinex, na Kraken, por meio das mesas de negociação OTC e até mesmo, se você tiver um grande volume, diretamente com a Tether.

Mas o fato é que várias corretoras, como a Binance, Huobi e OKEx já listaram algumas dessas stable coins concorrentes do Tether citadas acima, como podemos ver na tabela abaixo.

A natureza das stable coins

Apesar das várias stable coins, o Tether continua mantendo 98% do volume de negociação entre os tokens estáveis. A questão é saber até quando ele reinará nesse mar de suposta estabilidade.

Vamos entender abaixo um pouco mais sobre a natureza e diferenças entre as diferentes iniciativas de stable coins. O material abaixo foi escrito pela equipe do The Block Crypto, mas fiz algumas adaptações para melhor entendimento do leitor.

O que são stable coins?

As stable coins são, como alguns gostariam de dizer, o “Santo Graal” dos criptoativos. Em teoria, elas prometem oferecer a estabilidade existente nas moedas fiduciárias, além de preservarem aquela que talvez seja a mais importante das características de ativos digitais tradicionais, como o Bitcoin, que é a resistência à censura.

Antes de examinarmos como as stable coins podem sobreviver no ecossistema de criptoativos, precisamos primeiro entender as três classes principais de stable coins:

Lastreada por moeda fiduciária: mantém uma relação de 1:1 com a respectiva moeda fiduciária. Tradicionalmente, esses ativos tentam se manter atrelados ao dólar americano.

Lastreada por criptoativos: são colateralizadas por outros criptoativos. Ao invés de manter uma razão de um para um, esta categoria de stable coins tenta fixar o preço em relação a determinada moeda fiduciária colocando como lastro uma quantia maior de um único criptoativo ou uma cesta de criptoativos.

Lastreada por algoritmo: esta categoria não possui um ativo como colateral, elas tentam manter a paridade em relação a uma moeda fiduciária por meio da definição algorítmica de uma política monetária.

Como as stable coins resolvem a questão da volatilidade?

Lastreada em moeda fiduciária: sob este sistema, uma entidade terceirizada detém moedas fiduciárias em uma conta bancária e emite stable coins que representam reivindicações sobre essas moedas fiduciárias na proporção de 1:1. Como tal, um detentor de uma stable coin com garantia fiduciária deve ser capaz de resgatá-la por uma unidade de moeda fiduciária.

Lastreada em criptoativos: como os ativos colateralizados nesta categoria são também criptoativos, que por natureza são bastante voláteis, este sistema lança mão de uma estratégia de “super-colateralização” numa tentativa de absorver esta volatilidade. Isso ajuda a manter a estabilidade da moeda. Como exemplo, a relação atual considerada “segura” pela MakerDao para a stable coin DAI é de 150 ethers (ETH) para cada 100 DAI.

Lastreada por algoritmos: para manter a paridade de preços, esta categoria tenta controlar sua oferta de tokens através de política monetária pré-definida. Eles fazem isso expandindo e contraindo a oferta disponível de tokens no mercado. Por exemplo, se o preço de uma stable coin estiver muito alto, o algoritmo do protocolo emitirá novas unidades e as introduzirá no mercado, aumentando a oferta até que a paridade de preço seja atingida. Se o preço estiver muito baixo, o algoritmo comprará a stable coin no mercado vendendo títulos com desconto. Esses títulos garantem a seus detentores o direito a uma unidade daquela stable coin em uma data futura — incentivando os detentores da stable coin a vendê-la por títulos, o que na prática diminui a oferta total até que se atinja a paridade de preço.

Quais são as barreiras para a adoção?

Stable coins lastreadas em moeda fiduciária

Centralização: este tipo de stable coin requer entidades centralizadas para manter sua proporção de um para um. Isso significa que um detentor de uma stable coin apoiado por moeda fiduciária terá que confiar que a entidade centralizada está mantendo adequadamente depósitos fiduciários colaterais e que suas moedas estáveis ​​são resgatáveis. Se a entidade centralizada não mantiver seus depósitos adequadamente, os titulares correm o risco de não poder resgatar suas moedas estáveis.

Censura: como as stable coins apoiadas por moeda fiduciária são efetivamente administradas por custodiantes e são centralizadas, elas correm o risco de censura financeira. Os reguladores podem, em teoria, forçar a entidade por trás de uma stable coin deste tipo a proibir as transações para indivíduos específicos. O risco de censura financeira para esta categoria não o diferenciaria dos dólares digitalizados administrados pelos bancos. Algumas stable coins, como o GUSD, codificaram a capacidade de censurar transações.

Stable coins lastreadas em criptoativos

Cisne Negro: como esta categoria é lastreada por ativos extremamente voláteis, estas stable coins sempre correrão o risco de um evento de cisne negro. Se o ativo subjacente se deprecia drasticamente, a stable coin pode instantaneamente se tornar não colateralizada e perder completamente a paridade.

Eficiência de capital: o excesso de colateralização torna ineficiente esse tipo de ativo. Os usuários são efetivamente forçados a travar capital que poderia ser utilizado em outro lugar. Por exemplo, para criar um stable coin de US$ 100, talvez US$ 150 em valor precisaria ser bloqueado. Esses US$ 50 adicionais são retirados da economia e não mais se tornarão um ativo gerador de valor, ou seja, usado para investimento ou para consumir bens e serviços.

Stable coins lastreadas por algoritmo

Complexidade: gerenciar o que é essencialmente um banco central digital é uma tarefa complexa. Os principais desenvolvedores por trás de uma stable coin apoiada por um algoritmo devem determinar a oferta ótima de dinheiro para manter seus tokens estáveis ​​em relação à paridade de preço com o USD. Embora seja fácil expandir a oferta monetária para acompanhar a alta demanda ao se “imprimir” mais tokens, a oferta de dinheiro em contrato é muito mais difícil. A principal maneira pela qual as stable coins apoiadas por algoritmos tentam contratar a oferta de moeda é vendendo títulos descontados. A questão com a venda de títulos é a falta de garantia de que os títulos serão resgatáveis ​​no futuro, já que a maioria deles é de novos projetos com registros de curto prazo. Para que os detentores sejam incentivados a vender suas stable coins por títulos, eles devem acreditar que a plataforma da stable coin ainda estará lá quando chegar a hora do resgate das obrigações. Se a sobrevivência da plataforma for menos certa, os detentores da stable coin não venderão, resultando em um excesso de oferta de moedas no mercado, o que forçará o preço a cair e acabará com a paridade desejada.

Conclusão

As stable coins existem há alguns anos no mercado de criptoativos e possuem grande utilidade, principalmente para traders e arbitradores. Ao longo dos últimos anos, o Tether conseguiu se estabelecer como o principal ativo digital para aqueles que querem fugir da volatilidade extrema tão característica ao Bitcoin e derivados.

Nos últimos meses, diversas iniciativas de stable coins apareceram no mercado. Muitas destas tentam oferecer aquilo que o Tether, por algum motivo, sejam eles comerciais ou espúrios, não apresenta, ou seja, transparência e auditabilidade.

De qualquer forma, o conceito das stable coins é bastante interessante. Muitos na comunidade acreditam que seja impossível criar uma stable coin que seja, ao mesmo tempo, descentralizada e estável. Assim como o Santo Graal, a mística ao redor de uma stable coin perfeita estimulará empreendedores e desenvolvedores a continuar esta busca. Provavelmente, veremos muitas outras iniciativas do tipo surgindo no mercado no futuro breve. Resta saber se esses tokens conseguirão efetivamente criar a tão sonhada estabilidade que muitos desejam.